Un poema de Vinicus de Moraes



Un poema de Vinicus de Moraes

Presentamos, en versión de Omar Alejandro Ángel Cortés, un poema de Vinicius de Moraes, poeta y cantautor brasileño, conocido mundialmente por su canción Garota de Ipanema. Vinicius de Moraes fue un poeta fundamental para la cultura popular brasileña por su influencia en los ritmos nacionales de Brasil.

 

 

 

Receta de mujer

 

Que me perdonen las muy feas, pero belleza es fundamental.

Resulta preciso cualquier cosa de flor en todo eso.

Cualquier cosa de danza: cualquier cosa de haute couture

en todo eso (o en dado caso

que la mujer socialice elegantemente en azul,

como en la República Popular China).

No existen posibles puntos medios.

Es preciso que todo eso sea bello.

Resulta preciso que, de súbito,

se tenga la impresión de una garza posada apenas

y que un rostro adquiera de vez en cuando

ese color encontrable

sólo al tercer minuto de la aurora.

Es preciso que todo eso sea sin ser, pero que se refleje

y se desabroche.

Ante la mirada de los hombres resulta preciso,

absolutamente preciso,

que todo sea bello e inesperado.

Es preciso que unos párpados cerrados

evoquen un verso de Éluard y sea acariciado en unos brazos.

Alguna cosa más allá de la carne: tangible,

como el ámbar de una tarde.

Y, oh, déjenme decirles que es preciso

que la mujer, que existe como el pistilo

ante el pájaro,

sea bella o tenga al menos un rostro

que evoque un templo

y sea leve como un resquicio de nube:

pero una nube con ojos y nalgas.

Las nalgas son precisas.

Ojos, en todo caso, ni decir que miren

con cierta malicia inocente.

Una boca fresca (¡nunca húmeda!)

es también de extrema pertinencia.

Es precisa la delgadez en las extremidades,

que unos ojos sobresalgan,

pero, sobre todo, la rodilla al cruzar las piernas

y las crestas pélvicas

al enlazar una cintura moviente.

Esencial es, sin embargo, el asunto de las clavículas:

una mujer sin clavículas

es como un río sin puentes. Indispensable

la existencia de una hipótesis de barriguita y en seguida

que la mujer se erija en cáliz y que sus senos

sean una expresión greco-romana más que gótica o barroca

y pueden iluminar la oscuridad con una capacidad mínima

de cinco velas.

Sobretodo es pertinente que cráneo y columna vertebral

estén levemente visibles,

ligeramente a la vista, y que exista ¡un gran latifundio dorsal!

Que los miembros terminen como astas,

pero con cierto volumen de muslos

y que sean lisos, lisos como pétalos y cubiertos

de suavísimo vello y, sin embargo,

sensibles a la caricia de sentido contrario.

En la axila es aconsejable una dulce espesura

con aroma propio apenas perceptible

(¡con un mínimo de productos farmacéuticos!).

Preferibles sin duda los cuellos largos

de manera que la cabeza de a veces la impresión

de no tener relación alguna con el cuerpo

y que la mujer no parezca flores sin misterio.

Pies y manos deben poseer elementos góticos.

Discretos.

La piel debe ser fresca en manos, brazos, espalda y rostro

pero que las concavidades posean una temperatura nunca inferior

a los treinta y siete grados centígrados, con la eventual posibilidad

de provocar quemaduras de primer grado.

En cuanto a los ojos, que sean de preferencia grandes

y de rotación por lo menos tan lenta como la de la Tierra,

colocados siempre más allá de un invisible muro de pasión –preciso de traspasar.

Que la mujer sea en principio alta o, en caso contrario,

con actitud mental de altos pilares.

Ah, que la mujer de siempre la impresión que, de cerrarse los ojos,

al abrirlos existirá solo su ausencia

con su sonrisa y sus tramas. Que ella surja, no venga; sea, no vaya

y que posea una cierta capacidad de súbito enmudecimiento

capaz de hacernos beber

la hiel de la duda.

Oh, sobretodo que ella no pierda nunca

sin importar en qué mundo

sin importar en qué circunstancias,

su infinita volubilidad de pájaro;

y que acariciada en el fondo de sí misma

se transforme en fiera sin perder su gracia de ave

y que exhale siempre el imposible perfume

destile siempre la embriagante miel

y cante siempre el inaudible canto de su combustión

y no deje nunca de ser la eterna bailarina

de lo efímero.

Y en esa su incalculable imperfección

constituya la cosa más bella y más perfecta

de toda la creación

innumerable.

 

 

 

Receita de mulher

 

As muito feias que me perdoem

Mas beleza é fundamental. É preciso

Que haja qualquer coisa de flor em tudo isso

Qualquer coisa de dança, qualquer coisa de haute couture

Em tudo isso (ou então

Que a mulher se socialize elegantemente em azul, como na República Popular Chinesa).

Não há meio-termo possível. É preciso

Que tudo isso seja belo. É preciso que súbito

Tenha-se a impressão de ver uma garça apenas pousada e que um rosto

Adquira de vez em quando essa cor só encontrável no terceiro minuto da aurora.

É preciso que tudo isso seja sem ser, mas que se reflita e desabroche

No olhar dos homens. É preciso, é absolutamente preciso

Que seja tudo belo e inesperado. É preciso que umas pálpebras cerradas

Lembrem um verso de Éluard e que se acaricie nuns braços

Alguma coisa além da carne: que se os toque

Como o âmbar de uma tarde. Ah, deixai-me dizer-vos

Que é preciso que a mulher que ali está como a corola ante o pássaro

Seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo e

Seja leve como um resto de nuvem: mas que seja uma nuvem

Com olhos e nádegas. Nádegas é importantíssimo. Olhos, então

Nem se fala, que olhem com certa maldade inocente. Uma boca

Fresca (nunca úmida!) é também de extrema pertinência.

É preciso que as extremidades sejam magras; que uns ossos

Despontem, sobretudo a rótula no cruzar as pernas, e as pontas pélvicas

No enlaçar de uma cintura semovente.

Gravíssimo é porém o problema das saboneteiras: uma mulher sem saboneteiras

É como um rio sem pontes. Indispensável

Que haja uma hipótese de barriguinha, e em seguida

A mulher se alteia em cálice, e que seus seios

Sejam uma expressão greco-romana, mais que gótica ou barroca

E possam iluminar o escuro com uma capacidade mínima de cinco velas.

Sobremodo pertinaz é estarem a caveira e a coluna vertebal

Levemente à mostra; e que exista um grande latifúndio dorsal!

Os membros que terminem como hastes, mas bem haja um certo volume de coxas

E que elas sejam lisas, lisas como a pétala e cobertas de suavíssima penugem

No entanto sensível à carícia em sentido contrário.

É aconselhável na axila uma doce relva com aroma próprio

Apenas sensível (um mínimo de produtos farmacêuticos!)

Preferíveis sem dúvida os pescoços longos

De forma que a cabeça dê por vezes a impressão

De nada ter a ver com o corpo, e a mulher não lembre

Flores sem mistério. Pés e mãos devem conter elementos góticos

Discretos. A pele deve ser fresca nas mãos, nos braços, no dorso e na face

Mas que as concavidades e reentrâncias tenham uma temperatura nunca inferior

A 37º centígrados, podendo eventualmente provocar queimaduras

Do primeiro grau. Os olhos, que sejam de preferência grandes

E de rotação pelo menos tão lenta quanto a da terra; e

Que se coloquem sempre para lá de um invisível muro de paixão

Que é preciso ultrapassar. Que a mulher seja em princípio alta

Ou, caso baixa, que tenha a atitude mental dos altos píncaros.

Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que se se fechar os olhos

Ao abri-los ela não mais estará presente

Com seu sorriso e suas tramas. Que ela surja, não venha; parta, não vá

E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer beber

O fel da dúvida. Oh, sobretudo

Que ela não perca nunca, não importa em que mundo

Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade

De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma

Transforme-se em fera sem perder sua graça de ave; e que exale sempre

O impossível perfume; e destile sempre

O embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto

Da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina

Do efêmero; e em sua incalculável imperfeição

Constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável.