Poesía portuguesa: David Teles Pereira



Presentamos, en versión de David Ruano González, “Elegía color de rosa” del poeta portugués David Teles Pereira (Calda da Rainha, 1985). Es editor de Lingua Mora, en conjunto con Diogo Vaz Pinto, desde 2010 y fue co-editor, también con Diogo Vaz Pinto y Ana Antunes, de la revista Criatura (2008-2012). Publicó en 2010 la plaquette Biografia (Lingua Morta) y en 2013, con Diogo Vaz Pinto y Golgona Anghel, el libro Lobos (Lingua Morta).

 

 

 

 

 

 

ELEGÍA COLOR DE ROSA

 

Soy hijo de aquellos que lucharon el día 25 de Abril de 1974

para que hoy yo pueda quedarme en casa, aburrido, a escribir

sobre aquello que nunca voy a ser.

No soy heroico o tal vez lo sea a mi estilo.

Soy tragicómico, soy tremendamente sensacionalista,

puedo ser comprado en cualquier esquina más o menos oscura

de esta ciudad de vórtices fluorescentes que no me vio nacer.

Soy ideológicamente marxista, a pesar de no haber leído Das Kapital,

a pesar de todos los pares de pantalones que me quito a cambio de un cariño

así cuesten mucho más que media noche de amor.

No soy como Jano, pero tengo una máscara de múltiples caras,

por la pura diversión de engañar a quien se acuesta a mi lado.

Y a veces todo esto me hace llorar lágrimas tan fáciles

de soportar como diamantes brillantes al cuello de jóvenes

nunca tan bellas como yo. Pero la belleza es difícil.

Soy como Eco que fue la primera infeliz en sufrir de anorexia

por motivos amorosos. Safo no tenía razón.

Nadie en el futuro ha de pensar en mí.

Soy una manzana madura que cayó lejos del árbol.

Aun así, me enoja.

El único camino para mi corazón comienza en el centro

de mi boca. Y, como es natural, soy sexualmente ambiguo.

Soy la parte oscura de mí y es ella quien brilla incomparablemente

más que un día de verano.

La soledad de mi amor es una mecánica erótica

que reproduce en veintinueve espasmos el óbito celestial.

Tengo las espaldas arañadas y me enorgullezco.

Invertí en esto con las uñas afiladas y pintadas de negro.

Soy mi propio Basilisco cuando me miro al espejo,

cuando respiro en el espejo una línea tan natural como un árbol.

Soy la mitad de la granada que Perséfone comió,

o sea, un campo donde sólo nacen flores de pétalos negros.

No busca nada cuando salgo de casa.

Sin embargo, espero que haya alguien capaz

de aliviarme de la enorme tragedia de mi sueño.

Como Alejandro de Macedonia cometí el error

de contemplar todo mi Imperio demasiado pronto.

Se dice que él solamente sonrió cuando Aristóteles dejó

de corregirle la postura en el caballo.

Pero estoy sonriendo más que nunca.

Casi tres mil años después

ya nadie me puede enseñar la forma unánime y

democrática de robar la virginidad  a adolescentes

que, a falta de algo mejor, se consideran creadores de un

verbo poético capaz de todos los sentidos.

Soy nuclear, irregular, pornográfico, luminosamente inmoral.

Soy una princesa enfadosa, demasiado esquizofrénica

para aparecer en la portada de las revistas. Pero yo aparezco en la portada

de las revistas y lo hago siempre con tanta mediocridad

que nunca hubo ni habrá alguien igual a mí.

No tengo abuelos egregios. Escribo en nueva biblia

para quien quiera que sea: góticos, vegetarianos, practicantes de la Cábala

estén o no convencidos, modelos esqueléticas,

adoradores de dioses de carne, escritores adictos al MD,

actrices lindísimas en rehabilitación,

monjas listas para asumir la aparición de Jesucristo entre mis piernas

… me da igual.

Yo vi a CSS en el Lux el día 4 de abril de 2007 con los labios pálidos y quietos,

como quien pretende pasar la imagen de que es

demasiado irreverente para dejarse absorber por la música.

Mi sangre es del color de este poema y este poema es un ángel neutro.

Nadie me acompañaría al Père Lachaise a depositar

hojas mal olvidadas en la cima del campo del poeta.

Soy el procesador de textos más ilógico de mi generación,

tal vez sea el único que lo haga, pariente pederasta

de todos aquellos que no consiguieron hacer más que adaptar

Portugal al federalismo del consumo literario.

Allá en Lisboa, allá en Lisboa todo lo que hice fue morir.

Nunca pasó por mi cabeza que esta ciudad, tal sirena,

pudiese convencer a tantos a ahogarse en las profundidades del río.

No sé si he de parar en el infierno sólo para beber una cerveza

o quedarme ahí por una temporada.

Sólo por vanidad le puse el nombre de Salomé a mi gata

que parió un gato anónimo y muerto.

No tengo otra ilusión que despertar. A parte de eso,

tengo en mí todos los sueños eróticos de este mundo.

Sé de una música que calma a las aves. Sólo no sé

cómo tocarla. No está mal, soy demasiado revolucionario

y agitador para preocuparme con eso.

Soy moderno y lo mismo es decir que morí mucho antes de haber nacido.

Rilke debería estar pensando en mí cuando escribió

que todo Ángel es terrible.

 

 

 

 

 

 

 

Elegia cor-de-rosa

 

Sou filho daqueles que lutaram no dia 25 de Abril de 1974

para que hoje eu possa ficar em casa, aborrecido, a escrever

sobre aquilo que nunca vou ser.

Não sou heróico ou talvez o seja ao meu estilo.

Sou tragicómico, sou tremendamente sensacionalista,

posso ser comprado em qualquer esquina mais ou menos escura

desta cidade de vórtices florescentes que não me viu nascer.

Sou ideologicamente marxista, muito embora nunca tenha lido Das Kapital,

muito embora todos os pares de calças que dispo a troco de algum carinho

custem muito mais que uma noite média de amor.

Não sou como Janus, mas tenho uma máscara de múltiplas faces,

pela pura diversão de iludir quem se deita ao meu lado.

E às vezes tudo isto me faz chorar lágrimas tão fáceis

de suportar como diamantes brilhantes ao pescoço de jovens

nunca tão belas quanto eu. Mas a beleza é difícil.

Sou como Eco que foi a primeira infeliz a sofrer de anorexia

por motivos amorosos. Safo não tinha razão.

Ninguém no futuro há-de pensar em mim.

Sou uma maçã madura que caiu longe da árvore.

Ainda assim, trinca-me.

O único caminho para o meu coração começa no centro

da minha boca. E, como é natural, sou sexualmente ambíguo.

Sou a parte escura de mim e é ela que brilha incomparavelmente

mais que um dia de Verão.

A solidão do meu amor é uma mecânica erótica

que reproduz em vinte e nove espasmos o óbito celestial.

Tenho as costas arranhadas e orgulho-me.

Investi nisso com as unhas afiadas e pintadas de preto.

Sou o meu próprio Basilisco quando me olho ao espelho,

quando respiro no espelho uma linha tão natural como uma árvore.

Sou a metade da romã que Perséfone comeu,

ou seja, um campo onde só nascem flores de pétalas negras.

Não procura nada quando saio de casa.

No entanto, espero que haja alguém capaz

de me aliviar da enorme tragédia do meu sonho.

Como Alexandre da Macedónia cometi o erro

de contemplar todo o meu Império demasiado cedo.

Diz-se que ele só sorriu quando Aristóteles deixou

de lhe corrigir a postura no cavalo.

Mas eu estou a sorrir mais do que nunca.

Quase três mil anos depois

Já ninguém me pode ensinar a forma unânime e

democrática de roubar a virgindade a adolescentes

que, à falta de melhor, se consideram criadores de um

verbo poético capaz de todos os sentidos.

Sou nuclear, irregular, pornográfico, luminosamente imoral.

Sou uma princesa enfadonha, demasiado esquizofrénica

para aparecer na capa das revistas. Mas eu apareço na capa

das revistas e faço-o sempre com tanta mediocridade

que nunca houve nem haverá alguém igual a mim.

Não tenho egrégios avós. Escrevo esta nova bíblia

para quem quer que seja: góticos, vegetarianos, praticantes da Cabala

sejam ou não assumidos, modelos esqueléticas,

adoradores de deuses de carne, escritores viciados em MD,

actrizes lindíssimas em reabilitação,

freiras prontinhas a assumir a aparição de Jesus Cristo entre as minhas pernas

… tanto me faz.

Eu vi CSS no Lux dia 4 de Abril de 2007 com os lábios pálidos e quietos,

como quem pretende passar a imagem de que é

demasiado irreverente para se deixar absorver pela música.

O meu sangue é da cor deste poema e este poema é um anjo neutro.

Ninguém me acompanharia ao Père Lachaise para depositar

folhas mal esquecidas no cimo da campo do poeta.

Sou o processador de textos mais ilógico da minha geração,

talvez seja o único que o faça, parente pederasta

de todos aqueles que não conseguiram fazer mais do que adaptar

Portugal ao federalismo do consumo literário.

Lá em Lisboa, lá em Lisboa tudo o que fiz foi morrer.

Nunca passou pela minha cabeça que esta cidade, tal sereia,

pudesse convencer tantos a afogarem-se nas profundezas do rio.

Não sei se hei de parar no inferno só para beber uma cerveja

ou ficar por lá uma temporada.

Só por vaidade pus o nome de Salomé à minha gata

que pariu um gato anónimo e morto.

Não tenho outra ilusão que acordar. À parte isso,

tenho em mim todos os sonhos eróticos deste mundo.

Sei de uma música que acalma as aves. Só não sei

Como tocá-la. Não faz mal, sou demasiado revolucionário

e agitador para me preocupar com isso.

Sou moderno e o mesmo é dizer que morri muito antes de ter nascido.

Rilke devia estar a pensar em mim quando escreveu

Que todo o Anjo é terrível.